“Ladrão de Alcova” (1932) cumpre seu
objetivo e ainda faz mais, sendo pioneiro do gênero “comédia screwball”.
Confesso ao
leitor que, desde o (péssimo) filme “Ama-me essa Noite” (também de 1932), de
Rouben Mamoulian, adquiri um certo preconceito contra as comédias
hollywoodianas da década de 1930. Sabendo disso, posso afirmar que minhas
expectativas para “Ladrão de Alcova”, do diretor Ernst Lubitsch, eram
extremamente baixas, na realidade, quase nulas.
Porém, esse
preconceito foi praticamente destruído assim que vi os dizeres “The End” sobrepostos ao símbolo da
Paramount Pictures saltarem na tela. O filme, sendo uma comédia, não chega à
sombra de clássicos como “A Vida de Brian” (1979), dirigido por Terry Jones, do
grupo de comédia inglês “Monty Python”,
porém, é bastante superior à já citada obra de Mamoulian.
Começaremos
a destrinchar o filme pela parte técnica, mais precisamente pelo quesito da
imagem. Apesar da fotografia (do diretor de fotografia Victor Milaner), digamos,
minimalista e sem uma personalidade própria, podemos destacar o trabalho feito
para a imagem das câmeras, que rendeu a nota máxima na categoria. Praticamente
sem o uso de Close-ups agressivos e
forçados, que eram característicos dos filmes da época, e com muitas técnicas
de câmera em movimento (que inclusive fogem dos padrões até então predominantes
– ou seja, a utilização de Travellings
e Dolly Shots –, com destaque para a
cena em que Gaston é desmascarado, ainda em sua residência, em que a câmera
realiza um trabalho que traduz o que foi dito nesse tópico), a imagem do filme
se destaca, tornando um dos maiores méritos da obra.
Porém, tudo
se difere no quesito de som. Enquanto a imagem possui seu mérito exatamente no
fato de faltarem exageros desnecessários, a trilha sonora, realizada por W.
Frankle Harling é, muitas vezes, um incômodo real na presença da falha acima
citada. Uma trilha sonora que às vezes é inexpressiva demais e às vezes
exagerada demais, sem motivo. Portanto, não há um equilíbrio entre o exagero e
a inexpressividade de filmes como o que há em filmes como “Dr. Fantástico”
(1964), de Stanley Kubrick. A única razão para a ausência de um zero nessa
categoria é que o som captado das cenas não possui falhas muitos graves
(lembrando que se trata de um filme de 1932, o início do cinema falado).
Se a imagem
rende elogios e o som rende vaias, a direção de Ernst Lubitsch é um misto entre
as duas categorias. Boa parte dessa mistura ocorre devido à divergência entre a
atuação horrível e a ótima construção de cenas. O elenco, composto por Miriam
Hopkins, Kay Francis, Hebert Marshall, Charles Ruggles, Edward Everett Horton,
C. Aubrey Smith e Robert Creig é, com exceção de raríssimas cenas, lastimável
(utilizando o sensacionalismo por falta de palavras menos impactantes). Talvez
a cena final seja uma exceção à regra, porém esse caso não diminui de modo
algum a penalidade da nota, reduzida à metade em reação aos problemas
percebidos. Apesar disso, um grande
mérito da direção foi a construção de cenas, que respeitam o gênero e são, para
usar um termo bastante difundido nas críticas cinematográficas atuais,
“divertidas”. Apesar de “bobas”, as cenas possuem um humor rápido e leve,
algumas vezes até quase imperceptível.
Agora,
deixando de lado os aspectos técnicos (e, consequentemente, objetivos) de
“Ladrão de Alcova”, vamos às características subjetivas da obra, começando com
as “menos importantes”: Inovação e Condução. No primeiro aspecto, vale a pena
repetir o que já foi escrito sobre a imagem: os movimentos da câmera, apesar de
não serem novidade na época, não eram de uso comum. Isso causa uma sensação de
novidade em meio a um mar de Dolly Shots e
Over Shoulders Scenes desnecessários,
possibilitando a conquista da pontuação máxima no quesito. Quanto à condução,
confesso ao leitor que durante alguns minutos dormi, devido a algumas partes
arrastadas. Tal informação deveria pesar no quesito direção, porém as cenas
arrastadas foram mais um defeito talvez da interação roteiro-direção. Dessa
interação, nasce a condução, que perdeu alguns pontos graças à falha.
Finalmente,
chegamos à categoria mais valiosa (e, portanto, mais complexa) da avaliação de “Ladrão
de Alcova”, a história. Nesse aspecto, a obra perde metade de sua nota máxima,
devido à falta de desenvolvimento de suas personagens (em sua grande maioria,
sem motivações muito claras e um pouco caricatas demais, em um filme que não
exigia muito a aparição de personagens caricatos), uma grande falha presente em
uma gigantesca parte dos filmes do início do século passado. Fora isso, vamos
aos aspectos que ainda salvam a metade da nota da categoria, começando pelo
argumento, que é, nesse caso, extremamente simples (na realidade, o roteiro é
uma adaptação da peça “The Honest Finder”,
de Aladar Laszlo): na trama, uma dupla de ladrões (interpretados por Hebert
Marshall e Miriam Hopkins), se unem e é iniciada uma parceria, que, após de
alguns sucessos, só é abalada pela aparição de uma jovem rica (interpretada por
Kay Francis). Para roubá-la, a dupla inicia uma tática em que o ser masculino
se aproximaria da jovem e fingiria um interesse amoroso, para depois praticar o
delito (o roubo de um cofre) junto com sua parceira. Porém, como já era
esperado, enganador e enganada começam a criar um interesse real e mútuo. Mas, já
nos minutos finais, em um ato de bom-senso do argumento, o casal de opostos se
separa, e a dupla de ladrões (abalada com o romance demonstrado) volta à ativa.
Porém, o
roteiro de Grover Jones se expande, criando vários detalhes que se destacam e
fazem o filme ser inovador também em seu roteiro (seria uma falha minha não
colocar isso na categoria “inovação”?). Desde a sensualidade discreta que
conduz a trama (que, em alguns aspectos, lembrou-me da trajetória de Jerônimo,
talvez lembrando um pouco o determinismo de Taine), como já anunciam os
créditos (e as cenas) iniciais, até as críticas “leves” feitas ao consumismo em
algumas cenas (na qual se destaca o discurso proferido por um russo – soviético
–, em que é criticado o valor dado às coisas materiais).
Inovador em
alguns termos, falho em outros, um dos pioneiros da chamada “Comédia Screwball”, “Ladrão de Alcova”,
no original inglês “Trouble in Paradise”
(“Problema no Paraíso”, em uma tradução livre), é uma peça dourada (ainda que
com o brilho um pouco apagado) no meio de um mar cinza de filmes de produtoras
hollywoodianas do início da década de 1930, que pode ser assistido sem muitos
problemas.
IMAGEM: 0,5 (N.M.)
SOM: 0,2
DIREÇÃO: 0,5
INOVAÇÃO: 0,5 (N.M.)
CONDUÇÃO: 0,4
HISTÓRIA: 1,0
NOTA GERAL: 3,1
(0,1 ACIMA DA MÉDIA)
Nenhum comentário:
Postar um comentário