domingo, 29 de junho de 2014

Ladrão de Alcova

“Ladrão de Alcova” (1932) cumpre seu objetivo e ainda faz mais, sendo pioneiro do gênero “comédia screwball”.

   Confesso ao leitor que, desde o (péssimo) filme “Ama-me essa Noite” (também de 1932), de Rouben Mamoulian, adquiri um certo preconceito contra as comédias hollywoodianas da década de 1930. Sabendo disso, posso afirmar que minhas expectativas para “Ladrão de Alcova”, do diretor Ernst Lubitsch, eram extremamente baixas, na realidade, quase nulas.
   Porém, esse preconceito foi praticamente destruído assim que vi os dizeres “The End” sobrepostos ao símbolo da Paramount Pictures saltarem na tela. O filme, sendo uma comédia, não chega à sombra de clássicos como “A Vida de Brian” (1979), dirigido por Terry Jones, do grupo de comédia inglês “Monty Python”, porém, é bastante superior à já citada obra de Mamoulian.


   Começaremos a destrinchar o filme pela parte técnica, mais precisamente pelo quesito da imagem. Apesar da fotografia (do diretor de fotografia Victor Milaner), digamos, minimalista e sem uma personalidade própria, podemos destacar o trabalho feito para a imagem das câmeras, que rendeu a nota máxima na categoria. Praticamente sem o uso de Close-ups agressivos e forçados, que eram característicos dos filmes da época, e com muitas técnicas de câmera em movimento (que inclusive fogem dos padrões até então predominantes – ou seja, a utilização de Travellings e Dolly Shots –, com destaque para a cena em que Gaston é desmascarado, ainda em sua residência, em que a câmera realiza um trabalho que traduz o que foi dito nesse tópico), a imagem do filme se destaca, tornando um dos maiores méritos da obra.
   Porém, tudo se difere no quesito de som. Enquanto a imagem possui seu mérito exatamente no fato de faltarem exageros desnecessários, a trilha sonora, realizada por W. Frankle Harling é, muitas vezes, um incômodo real na presença da falha acima citada. Uma trilha sonora que às vezes é inexpressiva demais e às vezes exagerada demais, sem motivo. Portanto, não há um equilíbrio entre o exagero e a inexpressividade de filmes como o que há em filmes como “Dr. Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick. A única razão para a ausência de um zero nessa categoria é que o som captado das cenas não possui falhas muitos graves (lembrando que se trata de um filme de 1932, o início do cinema falado).
   Se a imagem rende elogios e o som rende vaias, a direção de Ernst Lubitsch é um misto entre as duas categorias. Boa parte dessa mistura ocorre devido à divergência entre a atuação horrível e a ótima construção de cenas. O elenco, composto por Miriam Hopkins, Kay Francis, Hebert Marshall, Charles Ruggles, Edward Everett Horton, C. Aubrey Smith e Robert Creig é, com exceção de raríssimas cenas, lastimável (utilizando o sensacionalismo por falta de palavras menos impactantes). Talvez a cena final seja uma exceção à regra, porém esse caso não diminui de modo algum a penalidade da nota, reduzida à metade em reação aos problemas percebidos.  Apesar disso, um grande mérito da direção foi a construção de cenas, que respeitam o gênero e são, para usar um termo bastante difundido nas críticas cinematográficas atuais, “divertidas”. Apesar de “bobas”, as cenas possuem um humor rápido e leve, algumas vezes até quase imperceptível.
   Agora, deixando de lado os aspectos técnicos (e, consequentemente, objetivos) de “Ladrão de Alcova”, vamos às características subjetivas da obra, começando com as “menos importantes”: Inovação e Condução. No primeiro aspecto, vale a pena repetir o que já foi escrito sobre a imagem: os movimentos da câmera, apesar de não serem novidade na época, não eram de uso comum. Isso causa uma sensação de novidade em meio a um mar de Dolly Shots e Over Shoulders Scenes desnecessários, possibilitando a conquista da pontuação máxima no quesito. Quanto à condução, confesso ao leitor que durante alguns minutos dormi, devido a algumas partes arrastadas. Tal informação deveria pesar no quesito direção, porém as cenas arrastadas foram mais um defeito talvez da interação roteiro-direção. Dessa interação, nasce a condução, que perdeu alguns pontos graças à falha.
   Finalmente, chegamos à categoria mais valiosa (e, portanto, mais complexa) da avaliação de “Ladrão de Alcova”, a história. Nesse aspecto, a obra perde metade de sua nota máxima, devido à falta de desenvolvimento de suas personagens (em sua grande maioria, sem motivações muito claras e um pouco caricatas demais, em um filme que não exigia muito a aparição de personagens caricatos), uma grande falha presente em uma gigantesca parte dos filmes do início do século passado. Fora isso, vamos aos aspectos que ainda salvam a metade da nota da categoria, começando pelo argumento, que é, nesse caso, extremamente simples (na realidade, o roteiro é uma adaptação da peça “The Honest Finder”, de Aladar Laszlo): na trama, uma dupla de ladrões (interpretados por Hebert Marshall e Miriam Hopkins), se unem e é iniciada uma parceria, que, após de alguns sucessos, só é abalada pela aparição de uma jovem rica (interpretada por Kay Francis). Para roubá-la, a dupla inicia uma tática em que o ser masculino se aproximaria da jovem e fingiria um interesse amoroso, para depois praticar o delito (o roubo de um cofre) junto com sua parceira. Porém, como já era esperado, enganador e enganada começam a criar um interesse real e mútuo. Mas, já nos minutos finais, em um ato de bom-senso do argumento, o casal de opostos se separa, e a dupla de ladrões (abalada com o romance demonstrado) volta à ativa.
   Porém, o roteiro de Grover Jones se expande, criando vários detalhes que se destacam e fazem o filme ser inovador também em seu roteiro (seria uma falha minha não colocar isso na categoria “inovação”?). Desde a sensualidade discreta que conduz a trama (que, em alguns aspectos, lembrou-me da trajetória de Jerônimo, talvez lembrando um pouco o determinismo de Taine), como já anunciam os créditos (e as cenas) iniciais, até as críticas “leves” feitas ao consumismo em algumas cenas (na qual se destaca o discurso proferido por um russo – soviético –, em que é criticado o valor dado às coisas materiais).

   Inovador em alguns termos, falho em outros, um dos pioneiros da chamada “Comédia Screwball”, “Ladrão de Alcova”, no original inglês “Trouble in Paradise” (“Problema no Paraíso”, em uma tradução livre), é uma peça dourada (ainda que com o brilho um pouco apagado) no meio de um mar cinza de filmes de produtoras hollywoodianas do início da década de 1930, que pode ser assistido sem muitos problemas.

IMAGEM:  0,5 (N.M.)
SOM: 0,2
DIREÇÃO: 0,5
INOVAÇÃO: 0,5 (N.M.)
CONDUÇÃO: 0,4
HISTÓRIA: 1,0

NOTA GERAL: 3,1 
(0,1 ACIMA DA MÉDIA)

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