segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ela

Em “Ela”, Spike Jonze cria uma comédia romântica perfeita em técnica, com elementos narrativos incomuns ao gênero.

   Em meio a um mar de comédias românticas altamente melosas e repetitivas, o desinteresse ao gênero ocorre de maneira rápida e dolorosa, principalmente quando somos apresentados aos enredos fracos, às personagens mal desenvolvidas (com desenvolvimento praticamente nulo, na realidade). Em uma primeira instância, pensei que “Ela” (2013), dirigido e produzido por Spike Jonze, teria todas as características essenciais para cair na mesmice dos filmes de mesmo gênero. Essa impressão foi contraída a partir do trailer, que assisti enquanto esperava para entrar na seção das dez da noite do filme “300 – A Ascenção do Império” (2014), dirigido por Noam Murro. Porém, para minha agradável surpresa, a obra de Jonze é, para os padrões de uma comédia romântica, fantástica.

   Para colocar início a essa dissecação, irei centrar meus comentários na análise da imagem do filme. Descrevendo em poucas palavras, o trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoyteman é simplesmente incrível, trabalhado em todos os detalhes para nos mostrar a solidão da personagem principal, no início da película, e nos conduzir pela evolução dos sentimentos que lhe são revelados com o desenrolar da trama. Como se não bastasse, o trabalho realizado com as câmeras e a edição também cumpre fantasticamente seu objetivo, a partir da utilização de planos longos e sem muitos cortes bruscos para descrever a mesma solidão supracitada, e alterando seu próprio estilo com a evolução também supracitada. Também é importante destacar os efeitos especiais, que, apesar de pouco expressivos e notáveis (com a hilária exceção da cena em que temos a personagem principal tentando se livrar da condição solitária em que se encontra em cárcere), são essenciais para a construção da imagem do filme, e são trabalhados de forma positiva, garantindo ao filme a nota máxima no quesito imagem.
   Quanto ao som, é praticamente impossível não dar a nota máxima. O maior desafio técnico do filme, apresentar uma personagem sem que haja nenhuma referência física a esta, é belamente executado com maestria técnica admirável. Além disso, a trilha sonora, uma performance única e integrada da banda Arcade Fire, nos conduz pelo enredo e se conecta de uma maneira inacreditável com a fotografia para demonstrar tudo o que já foi dito (e elogiado) na crítica da imagem. Ainda vale a pena destacar a captação de som em cena e os efeitos sonoros (sendo que estes são bastante discretos quando utilizados), que, como já é possível prever, não deixam nada a desejar na obra como um todo.
   Quanto à direção, Spike Jonze realiza um trabalho impecável, tanto na direção dos atores quanto na criação de cenas e na escolha de cenários. Com o papel principal, Joaquin Phoenix realiza um bom trabalho, com sua atuação sendo fiel ao extremo à personagem. No elenco também se encontram Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher e Portia Doubleday. Mas o grande destaque entre as atuações é a de Scarlet Johansson, no papel mais difícil do filme. Confesso que a única razão que, a uma primeira instância, me fez comprar o ingresso para a seção do filme foi a presença da atriz. Porém, com o passar do tempo e o desenvolvimento da trama, a figura (belíssima, diga-se de passagem) de Johansson simplesmente “some” da cabeça do espectador “absorvido” pelo enredo, graças ao trabalho realizado pela atriz, somente com a voz. A direção também acerta muito bem na criação de cenas (como a cena em que a personagem de Phoenix se relaciona com outra pessoa a partir de um chat para se sentir menos solitário) e na seleção dos cenários, que são extremamente bem trabalhados para demonstrar as emoções da cena. Essas características garantem, portanto, uma nota máxima no quesito.
   Agora, quanto à inovação, a única categoria com uma nota realmente baixa, vale a pena fazer-se uma ressalva: o filme não tem inovações muito extremas. Apesar do roteiro que é (em termos) inovador, as técnicas de som e imagem são (apesar de perfeitamente executados) muito parecidas com outras utilizadas em vários filmes atuais e antigos. Portanto, somente o roteiro, que não nos dá a sensação de “mais do mesmo”, faz com que a categoria não receba um zero. Quanto à condução, o filme possui um ritmo agradável, apesar de, em alguns momentos, o peso da duração da obra (126 minutos) é sentido. Porém, novamente, o roteiro (aliado às interpretações) faz esse problema ser ignorado em grande parte do filme. Essa falha traz consigo um sensível declínio na nota de condução.
    Finalmente, a categoria de história será dissecada no filme de Spike Jonze. Apesar da presença de uma produtora norte americana mainstream (Sony Pictures), cuja categoria é conhecida por restringir os roteiristas, não é perceptível no roteiro uma influência da mesma. Quanto ao argumento, este não é muito complexo, proém não é simples. Na trama, acompanhamos a vida de Theodore (Joaquin Phoenix), um homem de meia idade que acaba de se divorciar de sua esposa, Catherine (Rooney Mara) e trabalha em uma empresa cuja função é escrever cartas pessoais a pessoas em nome de outros (uma grande ironia do roteiro, demonstrando a dualidade da personagem). Solitário após seu divórcio e com grandes indícios de depressão, Theodore possui a “ajuda” de sua amiga Amy (Amy Adams, em uma atuação extremamente mediana). Porém, sua vida muda intensamente a partir do instante em que adquire um “Sistema Operacional” (Scarlet Johansson), uma inteligência artificial capaz de evoluir de acordo com as experiências vivenciadas. Nesse exato momento, passamos a falar do roteiro, também de Spike Jonze, que é quase perfeito devido às discussões criadas em cima da presença de Samantha (o nome adotado pelo Sistema Operacional): “O que é preciso para a existência de um ser?”, “Como surgem os sentimentos?”, “Qual é a essência do ser humano?”, entre outras que, assim como no excelente filme “Elefante” (2003), de Gus Van Sant, não são respondidas, sendo deixadas para a reflexão do espectador. Além disso, há discussões e reflexões em cima de temas como o amor platônico e a dualidade do homem.
    O roteiro possui somente um defeito perceptível: a covardia do final. O relacionamento de Theodore e Amy revela um deslize de Jonze, ao terminar o filme com um clichê feliz (até então, o filme estava possuindo um fim corajoso, com a “morte” – na realidade uma “evolução” da condição de “humana” – de Samantha). Isso, logicamente, pesa um pouco na nota dada à história.
    “Ela”, ou “Her” (no original inglês) ou “her” (forma apresentada nos cartazes), Jonze cria uma história de amor própria, com o mais próximo da perfeição técnica dos filmes de 2013 (apesar de vários outros filmes, como “O Lobo de Wall Street”, possuírem um roteiro impecável), e merece ser assistido tanto pelos cinéfilos radicais quanto pelas pessoas que procuram um filme romântico para chorar (sim, o ato é possível ao longo do filme).

IMAGEM: 0,5 (N.M.)
SOM: 0,5 (N.M.)
DIREÇÃO: 1,0 (N.M.)
INOVAÇÃO: O,3
CONDUÇÃO: 0,4
HISTÓRIA: 1,8

NOTA GERAL: 4,5

(1,5 ACIMA DA MÉDIA)

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