Em “Ela”, Spike Jonze cria uma
comédia romântica perfeita em técnica, com elementos narrativos incomuns ao
gênero.
Em meio a
um mar de comédias românticas altamente melosas e repetitivas, o desinteresse ao
gênero ocorre de maneira rápida e dolorosa, principalmente quando somos
apresentados aos enredos fracos, às personagens mal desenvolvidas (com
desenvolvimento praticamente nulo, na realidade). Em uma primeira instância, pensei
que “Ela” (2013), dirigido e produzido por Spike Jonze, teria todas as
características essenciais para cair na mesmice dos filmes de mesmo gênero.
Essa impressão foi contraída a partir do trailer, que assisti enquanto esperava
para entrar na seção das dez da noite do filme “300 – A Ascenção do Império”
(2014), dirigido por Noam Murro. Porém, para minha agradável surpresa, a obra
de Jonze é, para os padrões de uma comédia romântica, fantástica.
Para colocar
início a essa dissecação, irei centrar meus comentários na análise da imagem do
filme. Descrevendo em poucas palavras, o trabalho do diretor de fotografia
Hoyte Van Hoyteman é simplesmente incrível, trabalhado em todos os detalhes
para nos mostrar a solidão da personagem principal, no início da película, e
nos conduzir pela evolução dos sentimentos que lhe são revelados com o
desenrolar da trama. Como se não bastasse, o trabalho realizado com as câmeras
e a edição também cumpre fantasticamente seu objetivo, a partir da utilização
de planos longos e sem muitos cortes bruscos para descrever a mesma solidão
supracitada, e alterando seu próprio estilo com a evolução também supracitada.
Também é importante destacar os efeitos especiais, que, apesar de pouco
expressivos e notáveis (com a hilária exceção da cena em que temos a personagem
principal tentando se livrar da condição solitária em que se encontra em cárcere),
são essenciais para a construção da imagem do filme, e são trabalhados de forma
positiva, garantindo ao filme a nota máxima no quesito imagem.
Quanto ao
som, é praticamente impossível não dar a nota máxima. O maior desafio técnico do
filme, apresentar uma personagem sem que haja nenhuma referência física a esta,
é belamente executado com maestria técnica admirável. Além disso, a trilha
sonora, uma performance única e integrada da banda Arcade Fire, nos conduz pelo
enredo e se conecta de uma maneira inacreditável com a fotografia para
demonstrar tudo o que já foi dito (e elogiado) na crítica da imagem. Ainda vale
a pena destacar a captação de som em cena e os efeitos sonoros (sendo que estes
são bastante discretos quando utilizados), que, como já é possível prever, não
deixam nada a desejar na obra como um todo.
Quanto à
direção, Spike Jonze realiza um trabalho impecável, tanto na direção dos atores
quanto na criação de cenas e na escolha de cenários. Com o papel principal,
Joaquin Phoenix realiza um bom trabalho, com sua atuação sendo fiel ao extremo
à personagem. No elenco também se encontram Amy Adams, Rooney Mara, Olivia
Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher e Portia Doubleday. Mas o grande destaque
entre as atuações é a de Scarlet Johansson, no papel mais difícil do filme.
Confesso que a única razão que, a uma primeira instância, me fez comprar o
ingresso para a seção do filme foi a presença da atriz. Porém, com o passar do
tempo e o desenvolvimento da trama, a figura (belíssima, diga-se de passagem)
de Johansson simplesmente “some” da cabeça do espectador “absorvido” pelo
enredo, graças ao trabalho realizado pela atriz, somente com a voz. A direção
também acerta muito bem na criação de cenas (como a cena em que a personagem de
Phoenix se relaciona com outra pessoa a partir de um chat para se sentir menos
solitário) e na seleção dos cenários, que são extremamente bem trabalhados para
demonstrar as emoções da cena. Essas características garantem, portanto, uma
nota máxima no quesito.
Agora,
quanto à inovação, a única categoria com uma nota realmente baixa, vale a pena
fazer-se uma ressalva: o filme não tem inovações muito extremas. Apesar do
roteiro que é (em termos) inovador, as técnicas de som e imagem são (apesar de
perfeitamente executados) muito parecidas com outras utilizadas em vários
filmes atuais e antigos. Portanto, somente o roteiro, que não nos dá a sensação
de “mais do mesmo”, faz com que a categoria não receba um zero. Quanto à
condução, o filme possui um ritmo agradável, apesar de, em alguns momentos, o
peso da duração da obra (126 minutos) é sentido. Porém, novamente, o roteiro (aliado
às interpretações) faz esse problema ser ignorado em grande parte do filme.
Essa falha traz consigo um sensível declínio na nota de condução.
Finalmente, a categoria de história será dissecada no filme de Spike
Jonze. Apesar da presença de uma produtora norte americana mainstream (Sony Pictures), cuja categoria é conhecida por restringir
os roteiristas, não é perceptível no roteiro uma influência da mesma. Quanto ao
argumento, este não é muito complexo, proém não é simples. Na trama,
acompanhamos a vida de Theodore (Joaquin Phoenix), um homem de meia idade que
acaba de se divorciar de sua esposa, Catherine (Rooney Mara) e trabalha em uma
empresa cuja função é escrever cartas pessoais a pessoas em nome de outros (uma
grande ironia do roteiro, demonstrando a dualidade da personagem). Solitário
após seu divórcio e com grandes indícios de depressão, Theodore possui a “ajuda”
de sua amiga Amy (Amy Adams, em uma atuação extremamente mediana). Porém, sua
vida muda intensamente a partir do instante em que adquire um “Sistema
Operacional” (Scarlet Johansson), uma inteligência artificial capaz de evoluir
de acordo com as experiências vivenciadas. Nesse exato momento, passamos a
falar do roteiro, também de Spike Jonze, que é quase perfeito devido às
discussões criadas em cima da presença de Samantha (o nome adotado pelo Sistema
Operacional): “O que é preciso para a existência de um ser?”, “Como surgem os
sentimentos?”, “Qual é a essência do ser humano?”, entre outras que, assim como
no excelente filme “Elefante” (2003), de Gus Van Sant, não são respondidas,
sendo deixadas para a reflexão do espectador. Além disso, há discussões e reflexões
em cima de temas como o amor platônico e a dualidade do homem.
O roteiro
possui somente um defeito perceptível: a covardia do final. O relacionamento de
Theodore e Amy revela um deslize de Jonze, ao terminar o filme com um clichê
feliz (até então, o filme estava possuindo um fim corajoso, com a “morte” – na realidade
uma “evolução” da condição de “humana” – de Samantha). Isso, logicamente, pesa
um pouco na nota dada à história.
“Ela”, ou “Her”
(no original inglês) ou “her” (forma apresentada nos cartazes), Jonze cria uma
história de amor própria, com o mais próximo da perfeição técnica dos filmes de
2013 (apesar de vários outros filmes, como “O Lobo de Wall Street”, possuírem
um roteiro impecável), e merece ser assistido tanto pelos cinéfilos radicais
quanto pelas pessoas que procuram um filme romântico para chorar (sim, o ato é
possível ao longo do filme).
IMAGEM: 0,5 (N.M.)
SOM: 0,5 (N.M.)
DIREÇÃO: 1,0 (N.M.)
INOVAÇÃO: O,3
CONDUÇÃO: 0,4
HISTÓRIA: 1,8
NOTA GERAL: 4,5
(1,5 ACIMA DA MÉDIA)
IMAGEM: 0,5 (N.M.)
SOM: 0,5 (N.M.)
DIREÇÃO: 1,0 (N.M.)
INOVAÇÃO: O,3
CONDUÇÃO: 0,4
HISTÓRIA: 1,8
NOTA GERAL: 4,5
(1,5 ACIMA DA MÉDIA)

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