sábado, 14 de maio de 2016

Ave, César!

Apesar de um pouco atrapalhada em alguns aspectos, Ave, César! (Hail, Caesar!, 2016) é uma ótima comédia do metacinema.

  Os irmãos Joel e Ethan Coen estrearam nos cinemas com Gosto de Sangue, em 1984, atraindo olhares e vários comentários positivos da crítica internacional. Além filhos de uma historiadora e um economista, ambos possuíram formação nas ciências humanas: Ethan se graduou em Filosofia pela Universidade de Princeton, enquanto Joel participou de um programa de cinema na Universidade de Nova York. 
  Após alguns pequenos sucessos que sucederam seu primeiro filme, os irmãos retornaram à grande cena do cinema mundial com o lançamento de Barton Fink - Delírios de Hollywood, em 1991, que venceu a Palma de Ouro do ano. Logo após, foi lançado Na Roda da Fortuna, escrito em conjunto com Sam Raimi (de clássicos trash como Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, de 1981), que foi quase esquecido pela crítica, em grande parte pelo próximo filme dos irmãos, Fargo, de 1996, que atingiu um grande sucesso comercial e de crítica.
  Seguindo o lançamento de Fargo, outro sucesso deu as caras pelas mãos dos Coen, O Grande Lebowski, em 1998. Após, Joel e Ethan deram início ao que seria chamado da "Trilogia do Idiota", com E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, em 2000, que possui como "continuação" Queime Depois de Ler, de 2008. Entre os dois filmes, os irmãos ainda ganharam quatro Óscar pelo sucesso de 2007, Onde os Fracos não Tem Vez. Alguns anos (e vários filmes) depois, os Coen finalmente terminaram a triologia que se iniciara em 2000, com Ave, César! (Hail, Caesar!), em 2016.
  Primeiramente, preciso exaltar o trabalho de Joel e Ethan em retratar a atmosfera de toda a trama, que se passa na Hollywood do começo da década de 1950, ainda no início de sua decadência (decadência que inclusive é levemente citada em um diálogo inserido na película), com um roteiro muito bem amarrado, possuindo várias histórias paralelas que conseguem se entrelaçar de uma maneira muito bem trabalhada pelos irmãos, com quase todos os personagens possuindo relações diretas ou indiretas com outros. 
  Todo o espírito da "grandiosidade" de Hollywood nos meses que antecederam sua Fase da Decadência (logicamente, todo o cinema hollywoodiano estava corrompido e se tornando cada vez mais conservador -assim como a sociedade-, e o roteiro faz questão de também ressaltar isso) é muito bem retratado durante toda a duração do filme, com a maestria de humor negro que somente os Irmãos Coen conseguiriam entregar.
  A ambientação quase perfeita também é fruto da imagem e do som da obra, que fazem diversas referências aos filmes da época, desde algumas cenas apresentadas no "Padrão 4:3" (a imagem "menor" e mais "quadrada", que era altamente utilizada até ser suplantada pelo atual sistema "Widescreen"), no caso da imagem trabalhada pelo diretor de fotografia Roger Deakins (veterano do cinema, que trabalhou no clássico Um Sonho de Liberdade, em 1994), até a trilha sonora de Carter Burwell, que apresenta várias características da época "clássica" de Hollywood.
  Finalmente, vamos à direção, dividida entre os dois irmãos, que realizam juntos um trabalho muito bom, trazendo enquadramentos e ritmo espetaculares, porém pecando em alguns aspectos, principalmente na edição, que em diversas vezes apresenta sequências confusas, lembrando (ao longe, bem longe) a edição de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, lançado pouco mais de um mês antes do filme que dá título a essa resenha. 
  A direção de atores de Joel e Ethan também é espetacular, principalmente na figura de George Clooney (um dos mais conhecido atores atuais de Hollywood, com presença em diversos filmes como Onze Homens e um Segredo, no longínquo ano de 2001), no papel de Baird Whitlock, personagem que move pelo menos 80% da trama. Clooney apresenta uma interpretação que consegue misturar o cômico da situação de seu personagem com uma certa inocência, mesclando ainda uma pitada de revolucionário. 
  Completando os outros 20% da trama, vemos Scarlett Johansson (também conhecida do público, que estourou com Encontros e Desencontros, em 2003), que consegue atuar de uma maneira excepcional, com uma complexidade que pode não ser notada pelos espectadores que não prestam muita atenção, apresentando inclusive críticas à época. É bom notar os trabalhos de Josh Brolin (Onde os Fracos não Tem Vez) e Channing Tatum (Anjos da Lei, 2012).
  No final, Ave, César! pode não ser o melhor filme dos Irmãos Coen, porém é uma comédia espetacular, um ótimo registro póstumo de uma época "de ouro" que sucedeu uma decadência gigante. Ou seja, altamente recomendável para todos os que amam as artes audiovisuais. Vão assistir, por favor!

NOTAS:
HISTÓRIA: 1,9
IMAGEM: 0,4
SOM: 0,4
CONDUÇÃO: 0,5
INOVAÇÃO: 0,4
DIREÇÃO: 0,7

NOTA GERAL: 4,3

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