terça-feira, 15 de março de 2016

A Bruxa

A Bruxa (The VVitch: A New England Folktale, 2016) traz um filme de terror completamente diferente dos padrões, inclusive com várias críticas.

  Quando se pensa em filmes de terror, principalmente nos dias atuais, já vem à cabeça vários clichês. Entre eles, o que mais se sobressai é a ideia de que "um filme de terror bom tem que dar vários sustos". Mas essa ideia acaba contrariando até mesmo os maiores clássicos do gênero, de Drácula (1931) a O Iluminado (1980), que refutam essa ideia e entregam mais que somente sustos jogados na tela. Até mesmo algumas obras que possuem essa característica conseguem ser muito boas, como o recente Invocação do Mal, de 2013.
  Mesmo sabendo dessa ideia do público geral, fui assistir ao filme A Bruxa, do diretor Robert Edgers, no dia da estreia de um cinema da minha cidade. Por fontes de amigos, sabia que a obra se diferenciava dos padrões do gênero, e já estava esperando um filme sem sustos. Porém, a reação do público do cinema foi a pior possível, tanto pela inovação da película quanto pelas críticas contidas nela.
  Essa inovação está especialmente contida em duas características da obra, sendo a primeira delas o roteiro, escrito pelo próprio diretor, em sua primeira escrita de um longa. Estabelecendo como ambiente da trama uma pequena fazenda do início da colonização norte-americana, o guião possui como maior mérito a sua profundidade. Trazendo à tela diversas questões pertinentes até a atualidade, conseguimos perceber que o roteiro foi extremamente bem pensado, com diálogos totalmente dramáticos e reais, suspense na dose perfeita e várias reviravoltas. E o roteiro consegue inclusive fazer várias críticas, desde à própria condição de vida da sociedade americana (tanto na época quanto atualmente), passando pelo abandono das instituições até críticas pesadas a diversos dogmas da religião protestante (religião das personagens em cena), com destaque para o diálogo entre Caleb e William sobre o conceito de "pecado original".
  E Robert Edgers consegue não ser somente um ótimo roteirista, como também consegue dirigir a obra com uma maestria ímpar aos filmes do gênero. Com uma edição extremamente incomum até mesmo para filmes de diretores consagrados e enquadramentos extremamente bem feitos, o diretor de primeira viagem (nos longas) consegue fazer valer a pena o prêmio de melhor direção concedida à obra em Sundance no início do ano.
  Além disso, Edgers consegue também realizar um ótimo trabalho com a direção do elenco. Que, aliás, é composto por atrizes e atores quase totalmente desconhecidos ao grande público (até mesmo ao público mais cinéfilo), porém realiza um dos melhores trabalhos de todos os filmes os de terror que eu conheço até hoje. E a maior revelação com certeza é Anya Taylor-Joy, interpretando a protagonista da trama, Thomasin (os nomes das personagens inclusive podem ter algum significado especial, mas ainda não tive tempo para pensar sobre isso). Em seu primeiro trabalho em um longa (antigamente, só havia um crédito, por um episódio de Endeavour, em 2014), Taylor-Joy entrega uma das melhores atuações do ano, totalmente convincente e esforçada.
  Finalmente, quanto aos critérios técnicos, podemos observar um bom trabalho na imagem, tanto na fotografia de Jarin Blaschke (I Believe in Unicorns, 2014) que, apesar de não trazer nada de muito novo, conseguiu fazer um excelente trabalho, quanto nos efeitos especiais, que são poucos e muito bem colocados. O som fica um pouco atrás, mas somente por causa da trilha sonora, que não consegue acompanhar a grandiosidade dos outros trabalhos, ficando ofuscada totalmente. Fora isso, a mixagem de som é extremamente boa.
  Ou seja, para um filme com praticamente toda uma equipe de profissionais desconhecidos, somos apresentados a um dos (senão o) melhor filme de terror em muitos anos. Altamente recomendável, até mesmo para os que não são fãs do gênero (como eu).

NOTAS:
HISTÓRIA: 1,7
DIREÇÃO:1,0
CONDUÇÃO: 0.3
INOVAÇÃO: 0,4
IMAGEM: 0,5
SOM: 0,3

NOTA GERAL: 4,2

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