Trazendo um clima totalmente diferente das outras séries de herói, a primeira temporada de Demolidor (Marvel's Daredevil, 2015) consegue ser um marco na história do gênero.
Tudo começou na década de 1960, mais precisamente em abril de 1964, quando um grupo de jovens quadrinistas, formado por Stan Lee, Bill Everett e Jack Kirby, apresentou um herói no mínimo diferente dos outros. Nascia, assim, o Daredevil (no Brasil e em Portugal, chamado de Demolidor), um dos personagens mais icônicos da Marvel Studios.
Porém, o personagem permaneceu totalmente relegado a papéis secundários por quase vinte anos, até que, na década de 1980, um novo jovem quadrinista assumiu as histórias do herói: Mark Miller. Trazendo um título extremamente mais sombrio ao público, o artista conseguiu fazer com que todo a título renascesse das sombras, conseguindo uma grande liberdade para produzir suas histórias.
E é exatamente baseada nos conceitos de Miller que a série Daredevil, produzida pela Netflix em parceria com a Marvel Studios e a ABC Studios, consegue se tornar uma singularidade atual. Antes mesmo do lançamento da série, já tínhamos vários indícios de que sua qualidade seria muito mais elevada que o resto das outras séries (podemos destacar, somente como exemplos, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D e Arrow, ambas produzidas por canais de televisão aberta nos Estados Unidos). Um desses indícios foi a escolha do canal de divulgação da produção: o serviço de streaming Netflix (que também produziu a primeira temporada). Com quase nenhum erro nas escolhas dos projetos que escolhe apoiar (talvez seu primeiro erro tenha sido o execrável The Ridiculous 6, lançado no fim de 2015), a produtora possui um histórico perfeito em suas séries, ganhando inclusive diversas nomeações a vários prêmios consagrados (incluindo três indicações a melhor série por House of Cards e duas ao mesmo prêmio por Orange Is the New Black).
Outro indício foi a classificação etária concedida a toda a primeira temporada, que seria de 18 anos. Mas o que isso quer dizer? Isso quer dizer que a série poderia ser extremamente matura, conseguindo demonstrar cenas de violência explícita com muita facilidade, ponto que, como já dito anteriormente, é uma das características mais importantes da melhor fase das histórias do vigilante. E podemos ver que, durante toda a temporada, não houve medo de mostrar a violência da forma mais bruta e explícita possível, combinando totalmente com a história.
Quanto à história, podemos dizer que ela também é violenta e suja, demonstrando várias características ainda não exploradas pelo Universo Cinematográfico da Marvel (sim, toda a série está inserida no UCM, apesar de possuir um clima totalmente diferente de todas as outras obras da produtora), ou seja, todo o submundo que não está ao alcance dos heróis "maiores" e as corrupções desse submundo, passando por dramas pessoais e o crime organizado de Hell's Kitchen, bairro de Nova York em que toda a trama ocorre.
Com maestria, vemos toda esse corrupção representada por um homem, Wilson Fisk, interpretado magistralmente por Vincent D'Onofrio (já recorrente no mundo das séries, que havia atuado em Law and Order: Criminal Intent), irreconhecível no papel do milionário que enriqueceu às custas do crime organizado e da exploração de pessoas inocentes. Fisk possui o melhor desenvolvimento de toda a primeira temporada, ao lado do protagonista. Com a série trazendo passagens de sua vida desde sua infância até o tempo presente, conseguimos entender todas as suas motivações, desde as mais simples até as mais complexas, das mais sujas e violentas às mais apaixonadas.
Oferecendo um ponto oposto ao do vilão, temos a figura de Charlie Cox (que já havia aparecido em Boardwalk Empire), no papel de Matt Murdock, um rapaz que, após perder a visão quando menino e ganhar um upgrade em todos os seus sentidos, é treinado por um velho chamado Stick (interpretado de forma muito boa por Scott Glenn, de The Leftlovers), quando se torna um homem experiente em artes marciais. Unindo poderes, experiência em lutas e uma grande vontade de acabar com toda a corrupção de "sua cidade", Matt inicia uma carreira como vigilante, agindo contra tudo o que ele acha "errado". O mais complexo do personagem é as dúvidas que o rodeiam, principalmente a dúvida sobre a legalidade de suas ações e as diferenças entre ele e os rivais.
E as cenas de Matt como o vigilante são umas das melhores de toda a história das séries, totalmente por mérito das direções (destaque para a cena de luta no corredor, em que não há nenhum corte). Isso, aliado com o visual de toda a temporada, conseguem trazer totalmente a atmosfera perfeita para o personagem. Destaque para a cartela de cores de todas as cenas, e à mixagem de som (além, logicamente, da abertura, que é uma das melhores de toda a história).
Concluindo, não só acho que todos podem assistir a série, como também acho que qualquer pessoa que goste de séries bem construídas deve assistir pelo menos a primeira temporada de Demolidor. Obrigado, Marvel, ABC e Netflix.
NOTAS:
TÉCNICA: 0,9
DIREÇÃO: 0,9
ATUAÇÃO: 0,9
PERSONAGENS: 1,0
HISTÓRIA: 1,0
NOTA GERAL: 4,7

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