terça-feira, 22 de março de 2016

Deus da Carnificina

Contido ao extremo, Deus da Carnificina (Carnage, 2011) pode ser um dos melhores filmes de Roman Polanski.

  Um dos temas mais recorrentes, não só no cinema como também em várias outras mídias, é o comportamento do ser humano em situações estressantes, que acabam revelando um lado violento de todas as pessoas, um comportamento totalmente contrário às convenções sociais, um comportamento praticamente animal. Alguns bons exemplos são vários clássicos do cinema, desde o controverso Laranja Mecânica, de 1971, até o recente argentino Relatos Selvagens, de 2014. 
  Uma característica muito comum a quase todas estas obras é a presença da comédia, oferecendo sempre um humor negro da melhor categoria, mas que acaba nos afastando dos personagens, que se revelam, na grande maioria das vezes, totalmente unidimensionais e sem complexidade nenhuma.  Mas felizmente não podemos dizer isso de Deus da Carnificina, filme de Roman Polanski lançado em 2011. Construindo personagens totalmente críveis e com um ritmo quase perfeito, o filme pode se provar uma das melhores obras do diretor.
  Grande parte do mérito do filme vem, diretamente, da direção de um dos mais conhecidos cineastas ainda vivos, diretor de obras como O Pianista, vencedora da Palma de Ouro de 2002. Mesmo com a maior parte da trama (pelo menos 95%) se passando em somente um cômodo de um apartamento, Polanski consegue trazer um ritmo inacreditável à película, com uma edição muito boa e cenas muito bem dirigidas, com ângulos bem pensados e um ótimo trabalho na direção dos atores.
  Inclusive, toda a trama ocorre com um simples quarteto de atores, quase sempre com todos apresentando uma atuação excepcional. De um lado, temos o casal formado por Jodie Foster (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por O Silêncio dos Inocentes, em 1991) e John C. Riley (indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro por Chicago, de 2002), enquanto de outro lado podemos ver Kate Winslet (também vencedora do Oscar, por O Leitor, em 2009) e Christoph Waltz (outro vencedor do prêmio da Academia, por Bastardos Inglórios, em 2010). Foster consegue praticamente carregar todo o filme, com a trama sempre rodando ao seu redor, com uma atuação fora do comum, contrastando com Riley, que apresenta uma atuação apagada e, ouso dizer, algumas vezes meio falha. Winslet, interpretando talvez a personagem mais tridimensional da obra, também consegue se sustentar, apesar de alguns erros. Waltz, conhecido por seus papéis calmos e cínicos, retorna a esse espírito com maestria.
  Para entender as atuações, acho que é bem destrinchar a história da película. Contando a trama de dois casais que, após uma briga entre seus filhos, resolvem tentar resolver a situação da forma mais humana possível, o filme consegue explorar vários temas, desde a própria responsabilidade de se criar filhos até os problemas que ocorrem devido à pobreza na África. Esses assuntos são discutidos à medida que, sempre em duplas, os personagens começam a desistir da cordialidade imposta pela ocasião e iniciam uma verdadeira guerra, entre xingamentos, ironia e algumas quebras sociais. Tudo isso em um espaço praticamente único e sem pulos no tempo, trazendo a desumanização das personagens de um modo totalmente crível, com semelhanças à obra prima de 1962, O Anjo Exterminador
  Além da direção, das atuações e da história, vemos também um ótimo trabalho tanto na imagem do diretor de fotografia Pawel Edelman (que já havia trabalhado em filmes de Polanski, como o já citado O Pianista), que nos leva diretamente para dentro dos cenários. O som também não deixa muito a desejar, tanto na mixagem quanto na trilha sonora do vencedor do Oscar (por Grande Hotel Budapeste) Alexandre Desplat.
  No final, vemos o que pode ser uma reconciliação dos filhos dos casais, encerrando toda a obra de violência protagonizada por seus pais de uma forma extremamente mais cordial e humana. Vale totalmente a pena assistir essa obra prima de Polanski.

NOTAS:
DIREÇÃO: 0,9
HISTÓRIA: 1,8
CONDUÇÃO: 0,5
INOVAÇÃO: 0,3
IMAGEM: 0,4
SOM: 0,4

NOTA GERAL: 4,3

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